Sábado – Pense por si

Miguel Costa Matos
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
15 de abril de 2025 às 09:10

A ambição e a segurança nos compromissos eleitorais

Numa democracia a sério seria bom aplicarmos a sabedoria que usamos nas nossas finanças pessoais – só nos devemos comprometer com coisas que tenhamos a certeza que consigamos pagar.

A última semana trouxe-nos a realização dos primeiros debates e a publicação do programa eleitoral da AD. Com ela, vimos, tanto da parte da AD como da IL, o regresso de uma conversa estafada sobre a "ambição" dos cenários macroeconómicos que servem de base aos programas eleitorais. No debate com Pedro Nuno Santos, Rui Rocha lamentou os números de crescimento projetado para a economia portuguesa no programa eleitoral do PS e Luís Montenegro, ao apresentar o seu programa, voltou a prometer "ambição" para a evolução do PIB. 

Este tema não é só importante para os geeks económicos que se dedicam a comparar cenários. É importante para todos nós e para a democracia. Afinal, é a partir das projeções de crescimento que se estimam receitas fiscais e, consequentemente, o espaço para se poder assumir mais ou menos compromissos com os eleitores. Se quisermos que os eleitores possam acreditar nos eleitos, é necessário que consigamos honrar a palavra que damos nos pleitos eleitorais. Também só assim é que uma contenda eleitoral é justa, pois só se consegue debater as diferentes opções e prioridades que os partidos têm perante uma mesma disponibilidade orçamental. 

Não é isso que está a acontecer. Tal como tinha antecipado nesta rubrica na semana passada, o alarmismo da AD em relação ao impacto orçamental do programa do PS virou-se contra si mesma quando apresentaram o seu programa. Propondo uma redução do IRS, IRC e IVA da construção num valor total de 3,7 mil milhões de euros, Montenegro e a sua equipa está a prometer mais do dobro do que tinham considerado excessivo e irresponsável uma semana antes. O que deixaria Montenegro de fazer se tiver apenas 1,75 mil milhões de euros de margem? Priorizaria as pessoas ou as empresas? O que fará um governo PS se tiver os 3,7 mil milhões que a AD promete? Essas são perguntas que importam colocar. 

Numa democracia a sério seria bom aplicarmos a sabedoria que usamos nas nossas finanças pessoais – só nos devemos comprometer com coisas que tenhamos a certeza que consigamos pagar. Esse princípio de prudência é, aliás, o mesmo que é exigido, por lei, aos governos na elaboração do Orçamento do Estado. Isso explica que, apesar da AD apresentar no seu programa eleitoral um crescimento médio para 2025-2029 de 2,9%, nos cenários macroeconómicos com que se comprometeu com Bruxelas, o crescimento médio para o mesmo período seja de apenas 1,95%. Também as diversas instituições apresentam projeções que variam entre os 1,9 e 2,0% de crescimento para este período. 

Por onde é que os partidos deviam alinhar então a "ambição" das suas promessas, de crescimento e de medidas? Se os partidos passarem a apresentar crescimentos e propostas para o maior "bolo" de disponibilidade orçamental apresentado por outro partido, estaremos a encorajar promessas sem fim e sem qualquer base de realismo. No leilão eleitoral, nivelar por cima seria, na verdade, nivelar por baixo. Aliás, já vemos esse descolar da realidade nalguns casos, como o programa da IL que promete compensar 6,25 milhões em despesa fiscal com uma redução da despesa de 5 mil milhões que, simplesmente, não sabe justificar. 

É certo que outros 1250 milhões, dizem eles, vêm do "impacto das medidas económicas". Também Luís Montenegro afirma que a descida do IRC se paga a si própria, apesar de até o insuspeito Pedro Brinca dizer o contrário. É aliás uma tática muito utilizada do outro lado do Atlântico, pelos Republicanos de Donald Trump. O problema é que, por muito que esses impactos existam, eles são incertos e não são exclusivos dessa opção política. Também o IVA Zero ou o investimento público em habitação terão o seu impacto macroeconómico. 

Ao invés de "desejar" um crescimento maior e distribuir promessas com base nisso, seria melhor que, num próximo ato eleitoral, os partidos todos possam apresentar programas com base num mesmo cenário orçamental – seja o do Conselho de Finanças Públicas ou o do Plano Orçamental de Médio Prazo. Seria uma forma mais séria de debater opções e uma maior coerência da tal "ambição". Afinal, a verdadeira ambição para o país não escolhe locais, conforme se esteja em Bruxelas ou Portugal. É à luz da segurança dos seus compromissos que se pode avaliar a verdadeira "ambição" de um programa eleitoral. À falta dessa segurança talvez se possa, isso sim, julgar a seriedade de quem se candidata a governar. 

Mais crónicas do autor
05 de maio de 2026 às 10:06

Não brinquem com coisas sérias

Depois de 75 dias e mais de 900 contributos, esperava-se que o Governo tivesse a capacidade de ser muito concreto, com objetivos e metas. O documento apresentado é o contrário disso,

28 de abril de 2026 às 07:03

Para ser totalmente transparente

Aguiar Branco sabe tudo isto. Mas dar melhores condições de trabalho aos deputados só interessa se interessar os deputados trabalharem. Enquanto discutirmos quem são os políticos em vez do que fazem, bem podem se entreter a discutir salários, obrigações declarativas e outras perceções enganadoras.

21 de abril de 2026 às 07:33

Os custos da falta de palavra

Se pensarmos bem, na política como na vida, a arte está no difícil equilíbrio não só entre interesses conflituantes, como entre os anjos e demónios que habitam dentro de nós – a verdade e a moderação, a coragem e a prudência, a inteligência e a humildade.

14 de abril de 2026 às 07:00

Regionalizar para quê?

É preciso dar confiança aos cidadãos de que a criação das regiões administrativas não serve para criar mais lugares para os políticos, mas para verdadeiramente melhorar as suas vidas, através de políticas públicas mais eficientes e que respondam mais rapidamente às necessidades que sentem em cada local. Há 10 anos, ninguém acreditava que uma tão vasta descentralização de competências para os municípios poderia funcionar.

07 de abril de 2026 às 09:27

Quando o Estado não paga

As promessas da resposta mais rápida de sempre e de dinheiro na mão sem burocracia são, e bem, tema de uma primeira e muito pertinente Presidência Aberta de António José Seguro. Têm sido, também, um foco do Grupo Parlamentar do PS, com visitas no terreno e a exigência de um relatório mensal de execução desta despesa.

Mostrar mais crónicas